Antes dos pênaltis, partidas podiam ser decididas no sorteio: como nasceu o desempate mais dramático do futebol
Hoje parece impossível imaginar uma Copa do Mundo, Libertadores ou Champions League sem disputa de pênaltis.
Quando uma partida eliminatória termina empatada depois da prorrogação, todos sabem o que vem a seguir:
cinco cobranças para cada lado.
Goleiro de um lado.
Batedor do outro.
E praticamente nenhum lugar para se esconder.
Mas durante boa parte da história do futebol, essa solução simplesmente não existia.
Antes da criação das disputas de pênaltis, algumas competições precisavam recorrer a métodos que hoje pareceriam inacreditáveis para definir quem avançaria.
Havia partidas de desempate.
Havia novos jogos.
E, em determinadas situações, existia até sorteio.
Sim.
Uma equipe poderia ter sua campanha encerrada não porque perdeu dentro de campo, mas porque teve menos sorte na hora de decidir o vencedor.
O futebol precisava encontrar uma solução para os empates
O problema era relativamente simples.
Em campeonatos por pontos, um empate não representa grande dificuldade.
Cada equipe recebe a pontuação prevista e segue para a rodada seguinte.
Mas mata-matas precisam obrigatoriamente produzir um vencedor.
Quando duas equipes terminavam empatadas, as organizações tinham poucas alternativas.
Uma delas era marcar um novo jogo.
Era o chamado replay.
Os times voltavam a se enfrentar em outra data até que algum deles conseguisse vencer.
Funcionava.
Mas criava vários problemas.
Mais despesas.
Mais viagens.
Mais desgaste.
Problemas de calendário.
E nenhuma garantia absoluta de que o novo confronto também não terminaria empatado.
Em alguns casos, a sorte decidia
Quando não havia possibilidade de disputar novamente a partida, regulamentos podiam prever métodos baseados em sorte.
Um sorteio poderia decidir quem avançaria.
Isso parece estranho atualmente porque estamos acostumados à ideia de que um confronto esportivo deve ser resolvido por alguma ação dos próprios jogadores.
Mas durante décadas ainda não existia uma alternativa universalmente aceita.
O futebol precisava encontrar uma maneira que fosse:
rápida;
reproduzível;
relativamente justa;
e que acontecesse dentro do próprio estádio.
Foi assim que a disputa de pênaltis começou a ganhar espaço.
A disputa de pênaltis foi adotada em 1970
Segundo a FIFA, depois de anos utilizando replays e sorteios para resolver confrontos empatados, o International Football Association Board (IFAB) adotou oficialmente a disputa de pênaltis como método de desempate em 1970.
Era uma mudança enorme.
A partir daquele momento, o vencedor poderia ser definido dentro do campo.
Não seria necessário remarcar uma partida.
Muito menos deixar o destino de uma equipe depender exclusivamente da sorte.
O futebol ganhava um dos momentos que futuramente se tornariam mais dramáticos de todo o esporte.
Mas a Copa do Mundo ainda demorou 12 anos para usar o sistema
Curiosamente, a novidade não apareceu imediatamente em uma Copa do Mundo.
Foi preciso esperar até 1982.
Na Copa da Espanha, Alemanha Ocidental e França disputaram uma semifinal que entrou definitivamente para a história.
Depois de 120 minutos, o placar estava em 3 a 3.
Pela primeira vez na história do Mundial, uma vaga seria decidida nos pênaltis.
Alemanha x França virou uma das partidas mais famosas da história
O confronto ficou conhecido como a Noite de Sevilha.
E não apenas por causa dos pênaltis.
A partida teve praticamente tudo.
A Alemanha Ocidental abriu o placar.
A França empatou.
Na prorrogação, os franceses chegaram a abrir 3 a 1.
Parecia decidido.
Só que os alemães reagiram.
Karl-Heinz Rummenigge diminuiu.
Klaus Fischer empatou em 3 a 3.
E a semifinal entrou para um território até então desconhecido em Copas.
A disputa por pênaltis.
O primeiro jogador a perder um pênalti em uma disputa de Copa
Existe uma curiosidade dentro da curiosidade.
O alemão Uli Stielike entrou para a história como o primeiro jogador a desperdiçar uma cobrança em uma disputa de pênaltis de Copa do Mundo.
O goleiro francês Jean-Luc Ettori defendeu.
Stielike caiu no gramado e levou as mãos à cabeça.
A Alemanha parecia em enorme perigo.
Só que seu goleiro mudaria completamente a história.
Harald Schumacher decidiu a primeira disputa
Harald Schumacher defendeu cobranças francesas e permitiu a recuperação alemã.
A Alemanha Ocidental venceu a disputa por 5 a 4 e avançou para a final.
Aquele confronto estabeleceu um precedente.
Depois de 1982, a disputa de pênaltis nunca mais saiu do imaginário da Copa do Mundo.
Quantas disputas já aconteceram em Copas?
Segundo levantamento da FIFA publicado em 2025, 35 partidas de Copa do Mundo haviam sido decididas nos pênaltis desde a estreia do sistema no Mundial de 1982.
Isso mostra como aquilo que começou como uma solução administrativa acabou se tornando parte fundamental da competição.
Hoje, quando um mata-mata entra nos minutos finais da prorrogação, jogadores, técnicos e torcedores já começam mentalmente a se preparar.
Quem bate?
Quem fica por último?
Qual goleiro tem melhor histórico?
Quem está mais confiante?
A disputa criou até uma área completamente nova de preparação.
Hoje existem estudos específicos sobre pênaltis
O futebol atual transformou a disputa em ciência.
Comissões técnicas analisam:
- lado preferido dos cobradores;
- histórico de conversão;
- comportamento dos goleiros;
- direção mais frequente das cobranças;
- tempo de corrida;
- postura corporal;
- comportamento sob pressão.
A própria FIFA destaca como o futebol moderno trabalha com analistas, estatísticas e estudos específicos para esse tipo de decisão.
Isso é muito diferente do começo.
Na primeira disputa de Copa, jogadores chegaram praticamente sem experiência com aquele cenário.
A pressão psicológica é quase única no esporte
Talvez nenhum momento do futebol exponha tanto individualmente um jogador.
Durante a partida, um erro pode ser compensado por um companheiro.
Na disputa de pênaltis, durante alguns segundos, tudo parece se resumir a duas pessoas.
Batedor.
Goleiro.
O restante do estádio observa.
Essa individualização ajuda a explicar por que jogadores extremamente técnicos já erraram cobranças importantíssimas.
Não é simplesmente uma questão de saber chutar.
Existe um componente mental gigantesco.
O Brasil viveu seu maior momento nos pênaltis em 1994
Doze anos depois da primeira disputa em uma Copa, os pênaltis produziriam outro momento histórico.
Pela primeira vez, uma final de Copa do Mundo foi decidida dessa forma.
Brasil e Itália empataram por 0 a 0 após 120 minutos na decisão de 1994.
A Seleção venceu por 3 a 2 nos pênaltis e conquistou o tetracampeonato.
A imagem de Roberto Baggio chutando por cima do gol entrou para a história.
Para o Brasil, significou o fim de uma espera de 24 anos pelo título mundial.
Outra final também foi decidida nos pênaltis
A Copa de 2006 também terminou dessa maneira.
Itália e França empataram por 1 a 1.
Depois da prorrogação, os italianos venceram a disputa e levantaram a taça.
Até aquele momento, apenas duas finais de Copa tinham sido decididas nas penalidades.
Mais recentemente, a decisão de 2022 entre Argentina e França também chegou aos pênaltis, ampliando ainda mais a importância desse tipo de desempate na história do torneio.
Existe vantagem para quem bate primeiro?
Essa é uma das perguntas mais debatidas.
Durante muito tempo, estudiosos tentaram identificar se a equipe que realiza a primeira cobrança possui alguma vantagem psicológica.
A lógica é simples.
Se o primeiro time converte, o segundo sempre cobra sabendo que precisa marcar para não ficar atrás.
Isso pode aumentar a pressão.
Por esse motivo, diferentes formatos de sequência já foram debatidos e testados em competições.
Mas o sistema tradicional continua sendo amplamente utilizado.
Pênalti não é loteria
Existe uma expressão muito comum no futebol:
“Pênalti é loteria.”
Mas estatisticamente isso não é totalmente correto.
Uma loteria depende essencialmente do acaso.
Uma cobrança envolve habilidade, preparação, técnica e informação.
O goleiro pode estudar.
O jogador pode treinar.
A equipe pode escolher seus melhores cobradores.
Existe obviamente um componente psicológico e uma margem de imprevisibilidade enorme.
Mas não é simplesmente sorte.
O goleiro virou protagonista
Antes da popularização das disputas, goleiros eram avaliados principalmente pelas ações durante o jogo.
Com os pênaltis, surgiu uma espécie de especialização.
Alguns goleiros passaram a construir reputações justamente por sua capacidade de defender cobranças.
Isso pode influenciar até substituições.
Não é raro atualmente um treinador colocar um goleiro específico nos últimos segundos da prorrogação pensando exclusivamente na disputa.
Esse tipo de estratégia seria praticamente inimaginável antes de 1970.
Alemanha criou uma reputação histórica
A primeira disputa de Copa já ajudou a construir um dos maiores mitos do torneio.
A Alemanha ganhou fama de equipe extremamente eficiente nos pênaltis.
A própria FIFA destaca que, depois do erro de Stielike em 1982, a Alemanha passou décadas apresentando desempenho excepcional nesse tipo de decisão.
Isso demonstra como uma característica estatística pode acabar se transformando também em vantagem psicológica.
Adversários entram na disputa sabendo da reputação alemã.
Os alemães entram sabendo que possuem uma tradição positiva.
Apenas duas disputas de Copa precisaram passar das cinco cobranças iniciais até 2025
Outro dado curioso:
das 35 disputas de pênaltis registradas em Copas até o levantamento da FIFA de 2025, apenas duas chegaram à chamada morte súbita depois da primeira série de cinco cobranças.
Foram:
Alemanha Ocidental x França — 1982
e
Suécia x Romênia — 1994.
As duas tiveram 12 cobranças ao todo, recorde da competição.
Ou seja, a primeira disputa da história das Copas continua compartilhando até hoje outro recorde.
ANÁLISE MUNDO SPORTS NEWS: o futebol encontrou uma solução cruel, mas provavelmente a mais justa possível
Na minha visão, a maior curiosidade sobre a disputa de pênaltis é perceber que ela nasceu para resolver um problema de calendário e acabou criando um dos maiores espetáculos psicológicos do esporte.
Um sorteio poderia ser mais rápido.
Um replay poderia teoricamente ser mais justo.
Mas nenhum deles possui a combinação de praticidade e participação esportiva que os pênaltis oferecem.
O jogador ainda precisa executar.
O goleiro ainda precisa defender.
Existe competência envolvida.
É cruel?
Muito.
Mas pelo menos o resultado continua sendo decidido por ações de jogadores dentro de um campo.
Imagine uma final de Libertadores decidida no sorteio
É uma boa maneira de entender como o futebol mudou.
Imagine hoje uma semifinal de Libertadores terminando empatada.
Depois da prorrogação, os capitães caminhariam até o árbitro.
Uma moeda seria lançada.
Um clube avançaria.
Outro seria eliminado.
Seria praticamente impossível aceitar isso no futebol moderno.
Mas métodos relacionados à sorte realmente fizeram parte da história do esporte antes que surgisse uma solução melhor.
A disputa de pênaltis resolveu um problema e criou outro
O formato resolveu a necessidade de encontrar rapidamente um vencedor.
Mas criou uma pressão individual enorme.
Um jogador pode realizar excelente partida durante 120 minutos.
Depois errar uma cobrança.
E ser lembrado pelo erro durante anos.
Roberto Baggio é um dos maiores exemplos.
Jogou uma Copa espetacular em 1994.
Mas a imagem mais reproduzida daquela campanha continua sendo sua cobrança por cima do gol na final.
Esse é o poder narrativo dos pênaltis.
O momento em que o futebol deixa de ser completamente coletivo
Durante 120 minutos, 11 jogadores trabalham juntos.
Depois, a decisão se transforma em uma sequência de duelos individuais.
Essa mudança ajuda a explicar por que a tensão é tão diferente.
É quase como se, durante alguns minutos, o futebol mudasse de esporte.
O estádio fica em silêncio.
O jogador anda sozinho até a marca.
Arruma a bola.
Olha para o goleiro.
Corre.
Chuta.
Alguns segundos podem decidir anos de trabalho.
Uma invenção relativamente recente que parece ter existido para sempre
Talvez essa seja a grande curiosidade.
A disputa de pênaltis é tão integrada ao futebol atual que parece algo existente desde o nascimento do esporte.
Não é.
Sua adoção oficial como método de desempate aconteceu somente em 1970.
E uma Copa do Mundo só precisou utilizá-la pela primeira vez 12 anos depois.
Em termos históricos, é relativamente recente.
Ainda assim, seria quase impossível imaginar o futebol moderno sem ela.
NÚMEROS E CURIOSIDADES
Adoção pelo IFAB: 1970
Primeira disputa em uma Copa do Mundo: 1982
Jogo: Alemanha Ocidental 3 x 3 França
Resultado nos pênaltis: Alemanha Ocidental 5 x 4 França
Primeiro jogador a desperdiçar em uma disputa de Copa: Uli Stielike
Primeira final de Copa decidida nos pênaltis: Brasil x Itália — 1994
Campeão: Brasil
Disputas registradas em Copas até levantamento FIFA de 2025: 35
Maior quantidade de cobranças em uma disputa de Copa: 12
Jogos que atingiram esse número:
- Alemanha Ocidental x França — 1982
- Suécia x Romênia — 1994
FONTES E METODOLOGIA
Esta matéria utiliza dados históricos publicados oficialmente pela FIFA, incluindo registros sobre a introdução das disputas de pênaltis, a semifinal de 1982 e estatísticas históricas das Copas.
A interpretação sobre a evolução do método e seu impacto no futebol é análise editorial própria da Mundo Sports News.
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